quarta-feira, 7 de abril de 2010

Águas de Abril: um novo enredo para o ''mundo que caiu''

E as águas de março atrasaram sua chegada; São Pedro nem mesmo nos avisou que viriam em abril. E assim, sem saber, abrimos as portas para mais um dia comum, tão rotineiro em nossas vidas. Acordamos e, numa repetição diária, fomos para o trabalho, às aulas (na esperança de tornar tudo um pouco melhor no futuro), para o mundo lá fora. Que ironia, alguns nem mesmo voltariam para o conforto de suas casas, para os abraços de seus amores esperançosos, para o aconchego do amor de um filho; alguns iriam chorar águas de abril.
E foi dessa forma que fomos pegos, no susto, desprevenidos; foi na correria louca e egoísta de cada um que descobrimos a importância de sermos todos um só, uma nação.
Caos nas ruas, mulheres chorando, crianças (aquelas que não sabem o que é ter uma piscina no quintal de casa) nadando em meio às poças; enfim, o fim dos tempos modernos para muitos, catástrofe para outros, algo comum para os comuns. Mas uma coisa é certa e disso tudo será tirada uma lição: somos pequenos diante da grandeza dos nossos erros.
Omissos, empurramos com a barriga a importância da vida humana e pensamos em Copas do Mundo e Olimpíadas. Enquanto nenhum desses sonhos chega, a realidade são moradores em áreas de risco e alguns nem mesmo moradores, apenas contagem para o IBGE nas ruas. Pois bem agora vai mais uma contagem: centenas de vítimas fatais dos olhos cegos e corruptos do governo; milhares de desabrigados que perderam as tais residências em área de risco por falta de incentivo público para distribuição de lotes de terra em locais seguros.
Agora vão falar de investimento na infra-estrutura do estado (principalmente na cidade do Rio de Janeiro – ou melhor, de Abril –); e o pior é que JÁ disseram que isso não afeta os eventos esportivos. Nós lá queremos saber de esporte?! Só se for para aprender nado sincronizado na Praça da Bandeira, surfar nas ondas da Lagoa Rodrigo de Freitas ou dar um salto mortal do alto de algum morro (pois é a vontade que dá ao ver a cidade de cima).
Fomos acostumados com o rio de gente bonita, de gente do bem, do povo acolhedor; e agora, quem vai nos acolher?
Gastem o dinheiro que temos depositado todo ano aos cofres públicos, usem os recursos que nós, cidadãos, damos a vocês… Usem o que nos é de direito, para fazer direito. Ah, e usem a cabeça também, para ver se ainda funciona. E se sentirem cheiro de queimado, relaxem, temos muita água para apagar o fogo.