segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pra Sempre...

“São 55 felicidades e a mesma quantidade de tantos abraços. Mas onde estou se nesses mil abraços não me encontro? Onde estou senão nos braços que meu coração pra sempre amou...?”

Sim, hoje, sentado na varanda enquanto o chá esfria, são as ultimas horas de mais um adormecer das secas folhas de outono. E assim, deixo que escorram, nestas rugas que me entregam as lágrimas do que fomos e hoje vejo que não deixamos de ser...

Inverno de 86, ruas vazias, eu sonhava como nunca feito antes. De nome Antonio Carlos, eu era só mais um “jovem” boêmio de 30 anos na Ipanema de Vinícius. Nascido em berço de ouro, assumo nunca ter me preocupado com dinheiro, afinal, eram 30 anos com tantas festas e mulheres – aquelas da Ipanema de Vinícius e esquinas de Tom – entre um gole e outro de uísque. E pra ser honesto, por alguma delas até tive certo encanto, algum ar de desejo e romance, mas nenhuma que tivesse o dom em despertar-me um grande amor.

Vivendo assim, desregradamente, de bar em bar (sim, o dinheiro me sobrava. Já o requinte...), quando a bebedeira nos faz pensar que nada pode acontecer conosco, a vida pregou-me uma surpresa. A bebida havia me vencido. Pelo menos, parecia.

O céu escurecera, onde estava senão na mesma mesa dos copos e garrafas inquietos, das doses cada vez menos vazias? Eu me encontrava perdido na fronteira entre um caminho sem volta e a volta para o recomeço. Seja como fosse, tudo mudaria a partir daquele instante.

Acordei, e ainda tonto deparei-me em uma cama. Tudo branco, todos de branco. Havia morrido? Não, minha ressaca não iria se curar tão fácil assim. Olhei para os lados, nas quinas de cada canto de parede, mas uma simples placa e seus dizeres eu jamais esqueceria: Emergência. Finalmente eu sabia, infelizmente, onde estava. Tanto esforço em descobrir, não sei pra que; dormi.

Abri os olhos uma segunda vez, naquele mesmo lugar, porém “melhor”, até mesmo apresentável. E foi assim que eu a conheci - afinal, toda história que se preze merece um “bandido” e uma “mocinha” –, de branco, logo na minha primeira impressão. Quem seria aquela dama de cabelos pretos, ondulados como o mar? Quem seriam aqueles olhos, verdes como um jardim de primavera? Seria um anjo, ou apenas Angélica? Seja quem fosse, era ela.

Os dias passaram, e ela, como minha enfermeira, me acompanhou em cada dor e alegria naquele hospital, um lugar que não combinava com uma história linda que começava a ser escrita. Passamos a nos conhecer mais, no dia-dia, revelando segredos e intimidades um ao outro. Dessa forma, pude então conhecer um pouco mais a sua história de vida...

Nascida em 1960, na cidade de Belo Horizonte, Angélica teve uma infância difícil por ser de origem pobre (quem disse que os opostos não se atraem?). Dessa forma, priorizou sempre os estudos, por mais difícil que fosse conciliá-los com os trabalhos junto sua mãe, para ajudar dentro de casa. E tal esforço um dia foi recompensado; foi para uma universidade pública, formou-se com louvor em enfermagem. Chegava o momento de seguir adiante, um novo rumo, e em seu destino o Rio de Janeiro.

Recém chegada, com uma mão na frente e outra atrás, conseguiu emprego em um hospital renomado da cidade. Bom, a partir daí são meros detalhes que nos trouxeram até aqui.

Por esses e outros fatos de sua vida, fui encantando-me cada vez mais por aquela jovem e tímida interiorana; o amor batia à porta do meu peito. Era tanta beleza, que não poderia imaginar palavras duras emergindo de seus delicados lábios; mas um dia tais palavras vieram.

- Antônio, mesmo se eu quisesse, jamais saberia como lhe dizer o que vim dizer. Logo agora, que estávamos tão próximos... Mas, enfim, se precisa ser dito, que seja logo: você está com cirrose hepática.

Eu não sabia o que dizer. Passei apenas a odiar a tal bebida que um dia foi minha única companheira inseparável. Mas, hoje, era ela quem me separava da mulher que seria minha companheira ideal, eterna enquanto durar. Chorar? Não. Conseguia apenas secar as lágrimas de Angélica, abraçá-la e dizer: “não chore, meu anjo, vai ficar tudo bem”. Puro engano meu, pensar que sabia do final feliz.

As noites se arrastavam, o transplante era uma incerteza tão grande quanto o sol que nasceria para mim no dia seguinte. Tudo tão difícil, mas a força e o amor dela me ajudavam a superar qualquer desafio.

Mas, por força do destino – e a essa altura eu já acreditava veemente nele – surgiu no fim do túnel uma luz, um transplante. Novamente choramos; dessa vez de felicidade e alívio. Minha alegria aguçava minha curiosidade em querer saber de quem eu receberia uma segunda chance; Angélica não me dizia o nome do (a) doador (a). Sem saber a identidade do meu “salvador”, chegara o grande dia. A sala de cirurgia era preparada, os médicos se concentravam. Chegamos ao momento aguardado por nós dois. Eu, deitado em uma maca, seguia rumo à sala de transplante, e de repente surge Angélica, deitada em outra. Foi uma surpresa, um choque! Não fosse a anestesia e eu já estaria de pé, retirando ela ali de cima. No fundo, eu tinha um medo tão grande de perdê-la. Não dava tempo para refletir ou lamentar. Aceitei.

Fomos colocados um ao lado do outro, e em volta de nós dois uma equipe de médicos experientes, mas prestes a realizar um procedimento novo na medicina: transplante entre vivos. É claro que temia o lado ruim, mas a esperança em poder abraçá-la novamente e jurar o pra sempre me reconfortava.

Passaram as horas, novamente abri os olhos. Desta vez eu avistei um senhor, já grisalho pelo tempo de conhecimentos médicos. Ele me dera a notícia que eu temia ouvir...

- Sr. Antônio Carlos, meu nome é Afrânio, o cirurgião que transplantou o fígado de Angélica para o senhor. E é dela mesma que eu vim falar.

- Angélica?! Diga logo doutor, o que aconteceu?!

- Bom, o transplante foi um sucesso, porém ela teve algumas complicações no pós-operatório. Está estável, mas as chances de recuperação dela vão depender de como ela reagirá aos próximos dias. Esteja preparado para o pior e tenha muita fé. Sinto muito.

Pronto, meu mundo acabava de desmoronar naquele instante! De que valia um pedaço dela, se eu a queria por completo? Era minha vez de retribuir todo o seu esforço em me ver melhor. Era minha vez de estar ao lado dela no momento mais difícil de sua vida.

Mais noites daquelas se rastejaram, mais dias nascendo sem eu ter a certeza de que a veria abrir os olhos e sorrir pra mim. Porém, eu ainda acreditava no destino, mesmo que Deus viesse a tentar “tirá-la” de mim. Eu não deixaria, eu iria junto; ainda faltava lhe dizer o tal pra sempre. Por isso, penso que Deus ouviu minhas preces; ela havia se curado. Que alegria, que alívio! Agora sim, poderia abraçá-la e dizer as coisas que eu tanto ousei guardar pra mim.

O sol brilhava, saíamos pela porta da frente com uma vida toda pela frente.

Casamos em 1987, sorrimos, choramos, brigamos, brincamos. Enfim, fomos um casal; não o melhor casal, mas o melhor que pudemos ser um para o outro. Tivemos dois filhos, um casal – olha o destino -, e a menina, mais velha, como lembra a mãe. Outro anjo em minha vida. Mas o destino também nos trás surpresas não tão boas, e com isso, nossos filhos foram o ultimo e maior presente que ela me daria.

Em 2007, Aos 47 anos, após exatas duas décadas de casamento, ela partiu. Foi para o seu lugar, sua casa, pro céu. Lá de cima sei que ela cuida de nós três, seus três amores. E aqui de baixo eu olhos para as estrelas e lembro-me dos olhos dela, tão brilhantes. Seria ela uma dessas estrelas? Talvez.

Com isso, nossa história de amor “termina” (apenas pausa por um momento), da mesma forma que começou: Jurando amor pra sempre...

“Sim, hoje, ano de 2010, sentado na varanda enquanto o chá esfria, são as ultimas horas de mais um adormecer das secas folhas de outono. E assim, deixo que escorram, nestas rugas que me entregam as lágrimas do que fomos e hoje vejo que não deixamos de ser... Completei mais um ano de vida, outro sem ela. São 55 meias-felicidades e a mesma quantidade de tantos meio-abraços. Mas onde estou se nesses mil abraços não me encontro? Onde estou senão nos braços que meu coração pra sempre amou... E vai amar? Estou sob o olhar dela.”